O que é relativismo?

— Ah, mas isso é relativo!

Todos nós usamos a frase acima. A intenção com que a usamos é mais ou menos a de tentar mostrar que há mais aspectos envolvidos numa discussão do que aqueles que se apresentam à primeira vista. Frases alternativas poderiam ser:

— Há mais coisas a se considerar.

Ou:

— É mais complexo do que isso.

Dessa forma, quando usamos a primeira frase, quase sempre queremos negar a validade de alguma conclusão ou ponto de vista defendido pelo nosso interlocutor. Mas fazemos isso com a intenção de oferecer uma outra conclusão, que consideramos ser mais próxima da realidade, por mais fiel aos fatos.

Nós não tendemos a usar essa frase como recurso para negar a própria possibilidade de se chegar a uma conclusão — qualquer que seja ela.

Eis aí a diferença entre a simples frase “isso é relativo” e a visão filosófica ou cultural chamada de “relativismo”. A origem do relativismo se baseia na defesa da tolerância para com os que têm experiências diferentes das nossas. Nas ciências sociais, como na antropologia, o relativismo é um convite a tentar entender uma outra cultura pela sua lógica interna, suspendendo, momentaneamente, o preconceito baseado no conjunto de valores da nossa própria cultura.



Infelizmente, porém, a militância política tornou o relativismo algo bem diferente do que a nobre defesa da tolerância — em muitos aspectos, até o contrário da tolerância. O relativismo não é mais apenas a afirmação de que há mais aspectos a se considerar em um problema. Não é mais a suspensão temporária do etnocentrismo, mas a obrigatoriedade de um etnocentrismo às avessas, de um altercentrismo que, mais do que valorizar o outro, acaba por impor um ódio, um desprezo e uma intolerância para com os nossos próprios valores ocidentais — e até mesmo para com a ciência em nome da qual se tenta justificar o relativismo.


A essência do relativismo político militante é a idéia de que, no fundo, nenhuma conclusão tem valor. Nenhum conhecimento é válido. Nenhum princípio moral é universal ou mesmo virtuoso. Para o relativismo, tudo o que é humano é meramente fruto de contigências sociais e culturais. Não existe uma natureza humana que determina ao menos parte das nossas características (das virtudes aos vícios). Tudo é artificialmente construído pela cultura, pensam os relativistas, sem se importar em responder “mas quem é que constrói a cultura?”.


Se todo conhecimento e moral é meramente fruto do momento histórico, então todo tipo de comportamento é válido e defensável. Nada seria melhor ou pior. Não haveria hierarquia sobre culturas melhores ou piores. Embora isso soe bom a primeira vista, por ser uma boa forma de defender a bandeira da tolerância, o relativismo é contraditório em si mesmo: se tudo é válido, porque relativo, tanto a tolerância quanto a intolerância seriam posições igualmente válidas, porque baseadas na artificialidade da cultura. Democracia e ditadura seriam igualmente preciosas. Quem seríamos nós para julgar entre a escravidão e o trabalho livre? Entre o infanticídio e os direitos da criança?

Pior do que isso: a militância relativista sequer tem como resultado igualar os desiguais, considerando, por exemplo, que comer pão numa cerimônia religiosa ou sacrificar bebês seriam igualmente justificáveis. A militância relativista acaba colocando-se em defesa das formas mais cruéis de intolerância, porque “fazem parte de outra cultura, diferente, a que devemos respeitar”, mas tenta negar e destruir todos os valores da cultura em que o relativismo foi gerado: a cultura ocidental, que é justamente, se não a mais tolerante, ao menos a menos intolerante de todas.



Os exemplos da contradição (inconsciente ou proposital) do relativismo político são abundantes.

Os relativistas que nos obrigam a não-julgar extreministas religiosos que matam homossexuais ou mutilam mulheres são os primeiros a condenar enfaticamente os países ocidentais em que os homossexuais têm todos os direitos de cidadania, mas não podem se casar formalmente. O fundamentalista que mata homossexuais deve ter sua posição cultural respeitada. Mas ocidental que tem dúvidas sobre a sacramentalização da união civil homossexual não tem direito a ter sua posição respeitada, ainda que contrariada: não passa de um fundamentalista religioso, que deve ser execrado e comparado a um mero fascista, mesmo que ele não tenha a coragem de levantar sequer um dedo para atentar contra a vida de um homossexual.

Dessa forma, o relativismo se torna uma arma para defender todas as formas de intolerância, enquanto condena as sociedades em que, mesmo com preconceito, mais respeitam as decisões individuais. O relativismo político não é mais o respeito pela diferença, mas uma arma política para combater o que determinados grupos políticos consideram o Mal do mundo: a cultura individualista “egoísta” ocidental, a única em que as diferenças entre indivíduos podem ser efetivamente respeitadas.

Em palavras simples, os relativistas exigem que, para provar que somos tolerantes, nós toleremos todos os abusos dos intolerantes — enquanto estes têm a liberdade para combater a nossa sociedade tolerante, porque a cultura deles supostamente tem a intolerância como valor a ser “respeitado”.

Nessa página, vocês podem encontrar indicações de textos discutindo e criticando aspectos do relativismo científico, cultural e filosófico.

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Textos:


Relativismo cultural (Rodrigo Constatino)

4 comentários:

Steph disse...

Adorei seu blog!

Vejo tanta burrice e facismo por aí, tantos crentes fazendo argumentações sem fundamento ou sem sustento, tanta gente reclamando "o direito" de "não concordar" com homessexuais. . . Tanta babaquice no facebook, tantas coisas escritas grotescamente erradas. . .


É um alívio ver que alguém usa a internet para fazer um discurso inteligente e bem fundamentado, parabéns! =)

Fernando disse...

O site é muito bom... só não entendi porque o link para o site desse Olvao de Carvalho, um falso filósofo???

Rerisson C. disse...

Fernando,

O link para o site de Olavo de Carvalho é para irritar falsos conhecedores de filosofia.

Fernando disse...

Hum, vou fingir que aceito que vc é um verdadeiro conhecedor de filosofia, e não simplesmente alguém que, como grito de desespero por não haver verdades absolutas em nossa existência, cria um site com fundamentalismo disfarçado. Leia textos de "anti-antirrelativistas" (que NÃO são fundamentalistas/absolutistas), em vez de ficar postando tanta coisa tola!

VC É UM PSEUDO-INTELECTUAL!

 
Nós confiamos em Deus; quanto aos outros, que paguem à vista.