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sábado, 4 de novembro de 2017

O que quer, o que pode esta língua?

- Pode chamar um simples elogio de "cultura do estupro" e depois dizer que sexo entre homem de 40 anos e menina de 13 "não é pedofilia".

- Pode dizer que a polícia só existe para "matar pobres e negros" e depois defender que pobres e negros sejam proibidos de possuir armas, pois "só a polícia deve andar armada".

- Pode escolher "não mereço ser estuprada" como slogan anti-estupro e depois acusar de apologista do estupro um homem que repetiu o mesmo slogan. "você não merece ser estuprada".

- Pode pintar o "consumismo" como algo extremamente maligno e depois reclamar da má distribuição de renda e/ou da queda do "poder de consumo" dos pobres.

- Pode dizer que, não um, mas dois partidos socialistas alemães são de "extrema-direita" e depois concluir que, portanto, estes partidos eram "capitalistas".


Pode fazer tudo isso e muito mais, se assim o Partido mandar.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Uma aula socialmente correta

[Postado originalmente em 09/08/2012. Ressuscitado em 02/11/2017]

O professor (geralmente de língua portuguesa) leva aos alunos um texto para leitura. No texto, há um relato de alguma situação tocante, chocante. Por exemplo: um “bicho” vasculhando um monte de lixo procurando por comida. Após a descrição da situação sub-humana vivida por tal miserável animal, vem a revelação ao final do texto: o “bicho” era... um homem [*] um ser humano.

O professor, assim, cumpre o seu papel de despertar os aluninhos para os problemas sociais do país e prossegue em sua tentativa de moldar as cabecinhas das crianças para adquirirem “consciência crítica”. Como ele faz isso? Ora, ele levanta a discussão — com crianças de nove, dez anos — sobre as causas macro-econômicas, macro-políticas e macro-históricas para tal homem não ter o que comer e estar procurando comida no lixo.

(Tudo tem que ser macro. Não existe espaço para a compreensão de dramas e tragédias pessoais, das circunstâncias que nos tornam humanos e vulneráveis. Tudo é macro.)

Em seguida, o professor discute com os alunos que mudanças deveriam ser feitas no país, no governo, na sociedade, na ONU, em suma, no planeta inteiro (!!!) para transformar completamente o mundo em que vivemos e criar um mundo inteiramente diferente, onde todos os seres humanos estarão completamente livres de sofrimentos, da fome, da pobreza, da tristeza e de quaisquer outras mazelas imagináveis...



Atenção especial é dedicada a pôr a culpa “no governo” (a menos que o professor tenha votado no partido do novo governante...), “na sociedade” (seja lá quem ela for...) e “no sistema” (seja lá quem ele for...).

Em todo esse lindo espetáculo do despertar a consciência social de milhões de criancinhas em milhares de salas de aula em todo o país, apenas uma única atitude não é jamais levantada, cogitada ou sugerida: ninguém diz que a melhor forma de matar a fome daquele mendigo específico é levantar a bunda da cadeira, andar até ele e dar-lhe um pedaço de pão, um sanduíche, um prato de sopa ou uma mísera nota de dois reais.

E as nossas crianças crescem achando que é mais fácil reformar o planeta inteiro (o que pressupõe possuir poder supremo sobre toda a humanidade) do que tirar uma moeda do bolso. Isso é o que a escola e as universidades chamam de “ter consciência social”. No mundo real, isso se chama totalitarismo.

___________________________________

Nota:
*Esse trecho foi suprimido por ser obviamente machista.

sábado, 28 de outubro de 2017

Nova Generalização Femimiminista

As atas do último CNEFPAFAG (Congresso Nacional de Estudos Femimiministas Prafrentex Anti-fascismo Abaixo o Golpe) registram a seguinte decisão, tomada unilateralmente por todxs as companheiras:

- "Todo homem é um estuprador em potencial. Menos Caetano, que comeu uma menor de 14 anos."



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Uma gota de sangue, negro

[Publicado originalmente em 12/12/2010. Ressuscitado em 26/10/2017]

One-drop rule

Já ouviram falar da one-drop rule? Literalmente “regra da uma gota”?

Trata-se de um conjunto de antigas leis americanas que estabeleciam que a cor da pessoa não deve ser determinada pela sua real aparência, mas pela sua ascendência. A idéia é que, se a pessoa tiver “uma gota” de sangue negro (ou seja, um ascendente negro sequer), ela deve ser considerada negra, inclusive em documentos oficiais.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Inversões revolucionárias: o desprezo às mães na universidade

Algum tempo atrás, comentei com um colega (que tem carreira intelectual) que eu tinha alunas que trabalhavam o dia inteiro, estudavam à noite e só viam o filho no final de semana, porque, para elas, trabalhar não era "um direito" ou "uma opção", como pregava o feminismo, mas uma necessidade para terem com que comer e pagar as contas.

A resposta foi: "Quem mandou elas terem filho antes de fazer faculdade!".

Pensem direitinho sobre essa frase imbecil. Não é apenas que ela não tem nada a ver com a questão comentada. É que ela parte de uma inversão completa da natureza humana e social.

Para ele (e para muitos!), FAZER FACULDADE é um elemento natural da vida humana; algo que diz respeito à própria natureza das coisas; um item constitutivo do que é viver em sociedade: algo que sempre existiu por todos os séculos e sempre existirá pelos séculos e séculos. 

TER FILHOS, por outro lado, é que o elemento artificial, estranho, inovador e, portanto, supérfluo, não algo que é consequência da própria natureza humana e biológica, não um elemento que é a base da própria existência e subsistência da sociedade.

Do site: Gestação Bebê.
Essa inversão revolucionária da realidade, infelizmente, é o que domina a cabeça da esmagadora maioria das pessoas. A sociedade não deve, eles acham, tentar dar o máximo de subsídios para as mulheres que têm filhos; ela deve é incentivar as novas mulheres a nunca, jamais ter filhos.

Isso é mais do que tolice. É suicídio. As sociedade sobreviveram por milênios sem a mera existência das universidades. Mas nenhuma jamais sobreviveu sem muitas e muitas e muitas mães.

Notem que não se trata de criticar quem fez faculdade antes (ou ao invés) de ter filhos, mas de considerar que esta seria a única escolha socialmente aceitável ou louvável, enquanto a outra deveria ser estigmatizada, criticada e zombada.

Especialmente nesta época em que os diplomas universitários têm cada vez menos valor e em que uma multidão de advogados e engenheiros recém-formados explode as estatísticas do desemprego (devido a uma política educacional voltada a inflar números rapidamente), é preciso lembrar que, se a maternidade pode ser uma opção, muito mais opcional é fazer faculdade; este é apenas um entre vários caminhos, entre várias opções de vida e de profissão.

domingo, 15 de outubro de 2017

Mudança lingüística (2): "nudez", "pedofilia", Sociolingüística e Eurística

Vamos continuar nosso esforço para compreender melhor a linguagem revolucionária. Dessa vez, façamos o exercício de descrever uma polêmica atual utilizando os recursos teóricos de uma corrente da Lingüística moderna, a Sociolingüística Variacionista, fundada por William Labov.

***

Agora em 2017, um processo de mudança lingüística começou a se desenvolver no português do Brasil. Segundo a terminologia criada por William Labov, pai da Sociolingüística Variacionista, esse processo pode ser classificado como um caso de "mudança vinda de cima", ou seja, uma alteração surgida acima do nível de consciência dos indivíduos, por oposição às "mudanças vindas debaixo" (do nível de consciência).

Ainda pelos modelos da Sociolingüística, podemos apontar para o papel da hiper-correção, devido às semelhanças com o caso clássico do estudo da pronúncia do -R final na comunidade de Nova York, em que os membros da classe média alta (especialmente entre 30 e 40 anos) imitavam consciente e deliberadamente a pronúncia das classes mais altas (especialmente os mais jovens), em uma tentativa de ganhar, assim, parte do prestígio social e econômico associado a essas classes.

A mudança em jogo aqui, no português brasileiro, é de natureza lexical ou semântico-lexical. Envolve uma alteração drástica e inusitada no significado da palavra "nudez", especialmente em combinação com sintagmas preposicionados específicos como "na arte" ou "em museus".

Para uma parte da classe média alta brasileira, especificamente a que é exerce funções de "proletariado intelectual", a palavra "nudez" passou a ser usada para expressar o que o restante da comunidade sempre chamou de "abuso sexual infantil" ou de "pedofilia".



O extremo grau de artificialidade dessa alteração semântica, iniciada como uma estratégia retórica (ou melhor, eurística*) de desvio de assunto, confirma o caráter de uma mudança vinda de cima. (Qualquer semelhança com as estratégias lingüísticas descritas no romance "1984" é mera imitação).

Apesar de essa alteração semântica já ter assumido, dentro do grupo social do proletariado intelectual, um status de forma de prestígio, que, conforme Labov, aparece mais frequentemente em contextos de fala/escrita monitorada, para os demais grupos sociais, essa mudança semântica é completamente rejeitada, mantendo-se como uma forma extremamente estigmatizada, especialmente entre as classes sociais mais pobres.

Como naturalmente ocorre nesses casos, a reação do proletariado intelectual da classe média alta contra a fala das classes populares envolve elitismo e preconceito lingüístico. Por um lado, procuram reforçar, via hipercorreção, o uso da variante inovadora, com uma frequência bem maior do que ocorre entre as classes altas, onde a variante surgiu; por outro, tentam estigmatizar como "ignorantes", "desprovidos de cultura", "analfabetos" todos aqueles que não aderem ao novo padrão recém implementado pelas classes dominantes.

Este é um tipo de fenômeno também bastante conhecido na literatura sociolingüística, em que a mesma variante lingüística pode assumir o valor de forma de prestígio e de forma estignatizada em diferentes segmentos da mesma comunidade de fala.

Por exemplo: é bastante comum que, em grupos sociais mais pobres, a variante considerada de prestígio pelas classes altas seja vista negativamente, enquanto variantes que são estigmatizadas pela elite econômica/cultural são vistas como formas ideais dentro daquele grupo social, fenômeno denominado na Sociolingüística como "prestígio encoberto".

Entretanto, o conceito de "prestígio encoberto" não descreve adequadamente a situação por completo, uma vez que a forma estigmatizada pelo proletariado intelectual da classe média alta (usar o termo "pedofilia" para o conceito de PEDOFILIA e usar "abuso sexual" para o conceito de "ABUSO SEXUAL") ainda é a forma mais aceita como ideal de prestígio da maioria esmagadora da comunidade lingüística, enquanto a variante de prestígio para as classes altas (usar o termo "nudez" para os conceitos de PEDOFILIA e de ABUSO SEXUAL) só alcançou esse status elevado em um grupo social bastante restrito, embora com grande poder de imposição da variantes sobre outros grupos através de violência simbólica.

Mais estudos sobre o fenômeno, naturalmente, são necessários, para verificar:

  • a) Se o processo de mudança lingüística no proletariado intelectual da classe média alta, já quase inteiramente implementado, irá se consolidar no grupo social ou se recuará.
  • b) Se a nova variante ("nudez" como novo termo para "pedofilia") conseguirá se espalhar para outros grupos sociais/lingüísticos, vencendo a barreira que hoje existe por parte dos que não a consideram uma forma de prestígio.


Além disso, evidentemente, a descrição sociolingüistica capta apenas alguns aspectos do fenômeno. Para a compreensão total das motivações, dos objetivos e dos recursos empregados conscientemente para impor essa mudança, é preciso examinar vários outros aspectos.

***

* A "eurística", grosso modo, é a falsa retórica. Consiste em estratégias não para o convencimento a partir de recursos retóricos honestos, mas por meio de estratagemas desonestos. Seguindo a classificação de Schoppenhauer, o uso dos termos "nudez", "nudez na arte" e "nudez no museu" no debate público que é, na verdade, sobre abuso sexual e pedofilia poderia corresponder atrês estratégias eurísticas: a homonímia sutial; b) manipulação semântica; c) e a fuga do específico para o geral.


Bibliografia indicada

LABOV, William. Padrões sociolingüísticos. São Paulo: Parábola, 2008. (Trad. de Sociolinguisic Patters. Philadelphia: University of. Pennsylvania Press, 1972).

SCHOPPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão: 38 estratagemas (Dialética Eurística). TopBooks, 2003.

sábado, 14 de outubro de 2017

A genética pode dizer qualquer coisa (que você queira)?

É interessante como a origem genética ou biológica é usada criativamente para a defesa de coisas antagônicas no debate público embasado pela ciência.

Por exemplo. Há quem argumente que a religião existe porque teríamos evoluído de tal modo a sermos programados geneticamente a crer, devido às supostas vantagens evolutivas e necessidades contingenciais para explicar o mundo à nossa volta.

Curiosamente, esse raciocínio biologizante da religiosidade NÃO é feito para elogiar e defender a religião, mas para combatê-la, para desprezá-la como algo falso, sem realidade substancial, uma mera adaptação biológica útil. O mundo espiritual, assim, não existiria; apenas uma utilidade passada, que hoje (e este é o verdadeiro ponto da argumentação) seria dispensável.

Por outro lado, o mesmo raciocínio biologizante é utilizado para chegar a conclusões exatamente opostas a essa. Por exemplo, o argumento genético é usado para legitimizar bandeiras gayzistas, através da argumentação de que a homossexualidade também é uma condição biológica, genética, portanto (de algum modo bem curioso) relacionada diretamente ao modo como evoluímos no planeta.

O ponto aqui não é se essas interpretações são verdadeiras ou falsas, mas que elas são usadas, às vezes pelos mesmos grupos, para defender e sustentar conclusões exatamente opostas:

1) A religião deveria ser menosprezada, destruída e abandonada, pois é apenas fruto da evolução, sem nenhum valor real em si.

2) A homossexualidade deve ser exaltada, defendida e sua crítica deve ser criminalizada, pois é fruto da evolução, sem nenhum (ops! vamos omitir essa parte!) valor real em si.

Não importa se você é ateu ou crente, hétero ou homossexual. É bastante claro que esse tipo de procedimento é simplesmente desonesto, independentemente da realidade ou falsidade da hipótese biológica.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Símbolos da Revolução Russa (1): pornografia política e rumores sobre a monarquia

Neste ano de 2017, completam-se cem anos da Revolução Russa de 1917, que abriu caminho para os regimes políticos mais violentos e sanguinários da história humana.

Este pretende ser o primeiro de uma série de postagens sobre o papel dos símbolos e da linguagem nos movimentos revolucionários em atuação naquele momento da história russa. Aviso: Essas postagens não terão o perfil de textos plenamente desenvolvidos, mas de conjuntos de notas feitas a partir da leitura de bibliografias sobre o tema.

Esta primeira postagem é baseada no texto "The Desacralization of the Monarchy: Rumours and the Downfall of the Romanov", dos historiadores Orlando Figes e Boris Kolonitskii, publicado no livro "Interpreting Russian Revolution: The Language and Symbols of 1917".


A dessacralização da monarquia: rumores e a queda dos Romanov

Rumores e revolução

- A monarquia russa tinha seu poder baseado em autoridade divina. Em sua propaganda, era mais do que o “direito divino dos reis”; o czar não era só o governante ordenado divinamente, mas um deus na Terra.
Capa do livro "Interpreting Russian Revolution".

- Colapso da crença na autoridade monárquica foi provocada por dois eventos: i) o massacre do Domingo Sangrento em 1905; ii) e os vários rumores de corrupção sexual e traição na corte durante a I Guerra Mundial.

- Rumores desempenham um papel importante em todas as revoluções; e desempenharam na Revolução de Fevereiro.

- Os Romanov também atribuíam papel importante na sua queda aos rumores espalhados contra eles.

- Rumores espalham informação (ou desinformação) vital; criam uma atmosfera e ajudam a organizar as pessoas nas ruas; são amplificados pelos medos e preconceitos da multidão; e podem pressionar a coroa a ações decisivas que, em outros contextos, seriam evitadas.

- Historiadores da Revolução Francesa têm demonstrado que a fofoca sexual e a sátira pornográfica destruíram a autoridade da monarquia Bourbon. A decadência sexual da família real (a libido incontrolável de Maria Antonieta e a impotência do rei) serviam de metáfora para a degeneração moral e política do antigo regime.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Linguagem revolucionária: pequena bibliografia

Vou começar a montar uma pequena bibliografia sobre o efeito do uso da linguagem para impor mudanças drásticas sobre a sociedade.

1) “1984”. George Orwell




2) “LTI - A Linguagem do Terceiro Reich”. Victor Klemperer.




3) “Admirável Mundo Novo”. Aldous Huxley.



4) “Interpreting the Russian Revolution: The Language and Symbols of 1917”. Orlando Figes e Boris Kolonitsk.




5) The Yawning Heights. Alexander Zinoviev.



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Mudança linguística (1)

[Postagem de 23 de agosto de 2012]

Ontem
“Faço parte da elite cultural, da camada mais esclarecida da população, por isso voto na esquerda. Não sou como o povão burro e ignorante que vota na direita em troca de cesta básica”.

Hoje
“A elite prepotente é direitista e odeia a esquerda por que não suporta que o governo alimente o povão”.
 
Nós confiamos em Deus; quanto aos outros, que paguem à vista.